quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A educação tem sotaque - Eliane Brum

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/12/educacao-tem-sotaque.html


Ao completar 10 anos, a Olimpíada de Língua Portuguesa mostra que a escola exerce seu papel quando acolhe a diversidade – não só de experiências, mas também da linguagem na qual a vida se expressa


“Ê, Ê, Ê... Morena/ Ô, Ô, Ô... Machada/ Ê, Ê, Ê... Graúno/ Ô, Ô, Ô... Pelada.
O vaqueiro solta a voz/ No oco do mundo,/ Com seu aboio triste,/ Em poucos segundos,/ Encanta gente e gado./ Eita aboio profundo!”
O trecho acima é palavra escrita de um menino chamado Henrique Douglas de Oliveira, de 12 anos. Filho de vaqueiro, ele transcendeu – virou a vida do pai em poesia. Ao fazê-lo, tornou-se um dos 20 vencedores da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. 
Eu só tinha passado pela terra do Henrique, José da Penha, no Rio Grande do Norte, quando acompanhei Gretchen, a rainha do rebolado, em sua peregrinação por circos mambembes do interior nordestino, para fazer um documentário. Gretchen aparece numa cena do filme, falando com a dona do circo, pelo telefone, com o Brasil diante dela feito mapa, óculos se fazendo de equilibrista no nariz: “Zé de José?”. Era José da Penha, menos de 6 mil habitantes, aonde Gretchen vai atrás do povo, ela que vai a Brasis aonde bem poucos vão. Mas, quando estive lá, eu não sabia que José da Penha era também uma terra rica de Henriques. Por não saber, eu era mais pobre e também não sabia disso. 
Foi o que eu descobri, quando, semanas atrás, aterrissaram dois calhamaços lá em casa, contendo 152 textos, divididos em quatro categorias: poesia, crônica, memória literária e artigos de opinião. Eram os finalistas da Olimpíada de Língua Portuguesa. Em 2012, esse programa de educação envolveu cerca de 100 mil professores e cerca de 3 milhões de alunos, de 40 mil escolas, em mais de 5 mil municípios brasileiros. Eu tinha aceitado o convite para participar como jurada da comissão julgadora nacional, mas não tinha avaliado bem a trabalheira em curto espaço de tempo. Pensei: “Ai!”. Mas doeu só até começar a ler.  
Percebi duas coisas: 1) que falta faz esse Brasil com sotaque não só no falar, mas também na escrita; 2) que falta faz esse contar que não está nos jornais para nos contar de nós. Só então alcancei o privilégio de receber notícias dos tantos Brasis dos quais poucas notícias nos chegam, em várias línguas portuguesas – e não numa só. Os melhores textos eram justamente aqueles como o do Henrique, que não tentaram encaixotar a vida na linguagem dominante (mais ou menos essa que eu uso aqui, disseminada pelo Brasil especialmente pelos telejornais). Os melhores textos eram aqueles que carregaram para a escrita a variação linguística do seu Brasil, com palavras e ritmos nascidos de uma experiência diversa de ser brasileiro.  
A Olimpíada de Língua Portuguesa, para quem não conhece, é um concurso de textos entre escolas públicas de todo o país. Mas é muito mais do que isso, porque a ideia é iniciar uma transformação, pela palavra escrita, tanto no modo de ver o mundo, como a si mesmo – um modo de ver por escrito que ultrapasse os limites da escola e contamine a família e a comunidade, transformando-as também. Porque uma palavra só é com relação a um outro – e uma escola só é com relação à sua comunidade. Fora disso ela implode, perde a si mesma, arrastando família, comunidade, professores e alunos nessa perdição, que é o que temos testemunhado nas últimas décadas no país.  
Fazendo uma ponte com outros saberes e olhares do Brasil, a Olimpíada retoma a ideia do que um guarani-caiová (“Kaiowá” com “k” e “w” quando eles mesmos escrevem) chamaria de “palavra que age”, como já contei em outra coluna, ou até “palavra-alma”, aquela que circula pelo corpo. E como essa palavra age. Dentro e fora. Os estudantes descobrem que a palavra escrita, quando é escrita não apenas para cumprir tarefa ou para agradar ao professor, não como algo chato ou esvaziado de sentido, mas sim para expressar a experiência, registrar a memória e transcender a vida, mobiliza forças. Ao mobilizar forças, coisas acontecem.  
Algumas delas bastante reveladoras, como conta Sônia Madi, coordenadora da Olimpíada. Numa cidade do Mato Grosso, no curso do programa, professora e alunos montaram na escola um painel sobre as graves questões ambientais. Foi destruído. Em outra cidade, uma aluna discutiu em seu texto de opinião a legitimidade ou não da candidatura a prefeito de um homem que havia cometido um assassinato, mas ainda não tinha sido julgado. Ela e a mãe sofreram ameaças. A ponto de a mãe pedir para a filha desistir de continuar na Olimpíada. A garota permaneceu. 
Nestes casos, a escola documentou aquilo que acontecia na vida, mas nem sempre era registrado pela imprensa – e provocou reações de quem, escorado no poder, não estava acostumado a ser questionado. Provocou também conhecimento, debate e ação na comunidade. Como a professora Elisângela de Araújo e um grupo de alunos de Cruzeiro do Sul, no Acre. No curso das atividades propostas pela Olimpíada, eles criaram um folheto para os moradores com o objetivo de barrar o que poderia ser chamado de morceguicídio. Como os morcegos eram populosos na região e não são animais simpáticos aos olhos humanos, apesar da recente febre vampirística, eram vítimas de chacinas cotidianas. Ao compartilhar conhecimento com a comunidade, mostrando que os morcegos tinham uma função importante no meio ambiente, inclusive como agente de reflorestamento, esse grupo de professora e alunos cumpriu o papel da escola – fez uma intervenção. 
É como palavra que age que os trabalhos são propostos à rede pública do país. Coordenada pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), com financiamento da Fundação Itaú Social e, desde 2008, também do Ministério da Educação, a Olimpíada completou uma década. Na primeira edição, em 2002, o estudante Ronilson da Silva Procópio desfilou em carro de bombeiro pelas ruas de Benjamin Constant, no Amazonas, por tê-la vencido. Os criadores do programa tiveram certeza de que o projeto tinha dado certo: já não era apenas jogador de futebol que desfilava em carro aberto pelas ruas do Brasil. 
Cada edição da Olimpíada dura dois anos – nos pares é realizado o concurso de textos, nos ímpares a formação de professores. Todas as secretarias municipais de educação são convidadas a participar e, as que aderirem, elegem uma pessoa que vai coordenar a campanha no município – integrando tanto escolas municipais quanto estaduais, superando já de início a costumeira e boba rivalidade entre as duas redes. As escolas/professores que aderirem recebem um manual com oficinas de escrita, sempre com a ideia de ampliação de repertório e da construção de uma experiência que vá muito além do concurso e da escola. O tema é o mesmo para os quatro gêneros: “o lugar onde vivo”. 
Os alunos que trabalham com poesia, da quinta e sexta séries do ensino fundamental, são estimulados a conhecer os poetas da sua comunidade. Em memória literária, no sétimo e oitavo ano, buscam a história das pessoas mais velhas, rompendo a barreira das gerações e valorizando o conhecimento do outro. Em crônica, gênero do nono ano do ensino fundamental ou do 1o do ensino médio, o desafio é encontrar as marcas da cidade, as frestas nas quais a vida se reedita no cotidiano. Como faz uma das estudantes, ao descobrir que, na sua cidade, onde não tem nenhuma rua plana, os verbos mais conjugados são “descer” e “subir”. Nos textos de opinião, escritos pelos alunos da 2a e 3a séries do ensino médio, devem abordar os vários lados de uma questão que mobiliza – ou deveria mobilizar – a comunidade. E, a partir daí, posicionar-se. 
Cada escola elege seus melhores textos, nos diferentes gêneros, e disputa a etapa municipal. E assim por diante, até chegar a nacional. Os selecionados de cada estado participam das oficinas regionais, para as quais viajam com seus professores, o que já é um prêmio. Quem participou da oficina de crônica, entre outras atividades, ganhou uma câmera e entrevistou um fotógrafo sobre a apreensão do momento; quem trabalhou com memória literária ouviu do maestro João Carlos Martins: “No momento em que você usa a memória para aprimorar aquelas qualidades que você recebeu, você realmente está construindo o seu futuro”.  
É neste momento que surgem depoimentos como o do menino que explica seu processo criativo: “A pessoa escreve na ponta do lápis, a pessoa vai escrevendo de letra em letra, de pouquinho em pouquinho, e quando vê já tem uma estrofe. Eu gosto de trabalhar com rima porque a rima é divertido, a rima dá um diferente sentido na estrofe”. Ou a menina indígena que conta: “Lá na reserva, o povo diz que é indígena. Mas aqui na cidade não fala que é, por medo de ser... como é que se diz? Rejeitado. Eu falo, pra quem quiser ouvir”. (vale muito a pena assistir ao vídeo aqui). 
Ao ler os textos, descobrimos Brasis que a maioria de nós desconhece. Roberta Oliveira Morim, aluna da professora Rosangela Aparecida Morim, da Escola Estadual Anita Ramos, nos conta que, em Douradoquara, no estado de Minas Gerais, “não tem shopping, não tem churrascaria, não tem pizzaria, não tem funerária, não tem feira, não tem zoológico, não tem Pronto-Socorro, não tem espaço cultural, não tem parque, não tem quase nada”. É importante observar com que inteligência ela faz a sua crítica. E com que inteligência ela reconhece uma riqueza que só há lá, na sua aldeia: “Mas aqui tem uma coisa que cidade nenhuma tem. Sabe o que tem aqui? O jumento do tio Joãozinho”. Ficamos sabendo então que, em Douradoquara, a população não acorda nem com despertador, nem com apito de fábrica, nem com galo: acorda com jumento. Quem anuncia o dia por lá, pontualmente, às 6h da manhã, é o zurro do Paioso, um “jumento pega” de pelos acinzentados e metro e trinta de altura.   
“Relógio Jumento” foi uma das cinco vencedoras nacionais, na categoria crônica. Desde que li, não tem dia que eu acorde em São Paulo – neste último domingo acordei com o foguetório dos corintianos às 5h30 da manhã – sem que eu lembre do Paioso. Que, graças à Roberta, agora também faz parte do Brasil que me habita. 
Em memória literária, um dos cinco textos vencedores foi o extraordinário “O tempo, o chiado e as flechas”. Escrito por Jhonatan Oliveira Kempim, de 13 anos, e orientado pelo professor Alan Francisco Gonçalves de Souza, da Escola Municipal Teobaldo Ferreira, de Espigão d’Oeste, em Rondônia, ele documenta um conflito real, mas o transcende pela literatura. Assumindo a primeira pessoa da narradora, ele conta o encontro entre indígenas e posseiros na derrubada da floresta amazônica nos anos 70. Mas o faz usando o chiado da panela de pressão como metáfora da invasão de um mundo pelo outro. 
Ao escutar o chiado da panela, um barulho que não pertencia ao seu universo, um pequeno indígena apavorado disparou uma flecha que alcançou a garganta do filho daquele que derrubava a mata e com ela o território do outro, acreditando nas promessas de progresso do Brasil Grande da ditadura militar. Duas crianças inocentes numa guerra que não lhes pertencia. 
Ao transformar memória em palavra, aquela que narra se descobre em terra arrasada, cercada por grades e muros eletrificados. Identificada não mais com o “progresso” que foi buscar, mas com as últimas árvores sobreviventes e com rios que têm sede. Descobre que ela também resta em um mundo no qual até o chiado da panela se calou, porque tanto o indígena quanto o invasor foram sequestrados de si.
Nesta edição de 2012, há muitas pistas para reflexão. Trago algumas delas para cá. No quesito “as notícias que o Brasil nos dá”, destaco que boa parte dos textos de opinião escritos pelos estudantes revela a preocupação das pequenas e médias cidades com o impacto, no meio ambiente e na vida das pessoas, das grandes obras de infraestrutura promovidas pelo Estado e também pela intervenção de grandes empresas em áreas como a mineração. Me chamou a atenção o fato de que essa preocupação não alcança expressão correspondente na imprensa que tem como missão documentar a história cotidiana do país, na qual me incluo.
Um outro ponto importante é perceber a procedência dos trabalhos vencedores na etapa nacional. Entre os 20 vencedores, nas quatro categorias, quatro são de Minas Gerais, três do Paraná, dois do Rio Grande do Norte e dois do Ceará. E cada um dos seguintes estados tiveram um vencedor: Acre, Amapá, Rondônia, Pará, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nesta relação chama a atenção pelo menos duas ausências: São Paulo e Rio de Janeiro, sendo que São Paulo participou com o maior número de textos na etapa inicial.
 Outro dado revelador é que, entre os 20 vencedores, apenas quatro são estudantes de escolas nas capitais: Natal, Recife, Macapá e Rio Branco. Entre os 152 finalistas, a proporção é semelhante: apenas 24 estudam em capitais – o equivalente a 16%. Olhando apenas para finalistas fora das capitais, 64% vivem em cidades com até 50 mil habitantes.
Vale a pena pensar no que isso significa. E várias hipóteses podem ser levantadas. Sônia Madi, a coordenadora da Olimpíada, acredita que uma das questões decisivas para o resultado é o envolvimento da comunidade em todo o processo, das oficinas aos textos. “Em cidades pequenas, a comunidade adota a ideia e se envolve com as atividades. A Olimpíada é um acontecimento”, diz. “Já nas maiores, especialmente nas capitais, tudo é mais difícil. Em São Paulo, por exemplo, os professores já vivem a dificuldade de ir de uma escola à outra, de dobrar período, tudo é mais complicado.”
Me arrisco a sugerir uma hipótese, entre as tantas que podem ser examinadas. Quem conhece as periferias do Rio e de São Paulo sabe que tanto as experiências quanto as variações linguísticas pelas quais as experiências são expressadas são riquíssimas. Tão ricas quanto diversas entre si – e diversas das realidades dos muitos interiores do Brasil. Só na periferia de São Paulo, que conheço um pouco, a quantidade de palavras que precisaram ser criadas para dar conta da realidade é enorme. Mas talvez a escola não esteja conseguindo acolher essas variações linguísticas, já que elas não apareceram nos textos – pelo menos naqueles que eu li.
Imagino que seja muito difícil para um estudante se expressar com palavras que não sejam as suas – traduzindo uma experiência de periferia com uma linguagem falada nos Jardins. Uma espécie de “preconceito linguístico” que pode ter sido reproduzido em parte das escolas. Isso acontece quando a escola não consegue construir a ponte com a comunidade na qual está – e na qual se realiza como escola.
É apenas uma das hipóteses a ser investigada e posso estar equivocada. O fato é que a riqueza encontrada em manifestações artísticas como o hip-hop ou em eventos literários como a FLUPP (Festival Literário das UPPs, realizado nas comunidades do Rio neste ano) e a Cooperifa (o maior sarau literário do país, reeditado a cada quarta-feira na periferia da Zona Sul de São Paulo) não apareceram na Olimpíada.
Neste sentido, sempre lembro do poeta Sérgio Vaz, da Cooperifa, numa entrevista que fiz com ele anos atrás. Um intelectual reclamou ao poeta: “Na Cooperifa vocês ensinam a escrever errado! Vão acabar deixando recado na porta da geladeira com ‘nóis vai’”. Sérgio Vaz retrucou, com a verve habitual: “Primeiro, que não tem geladeira pra botar recado. Segundo, que quando nóis vai, nóis vai mesmo”.
O que a Olimpíada nos mostra é que, quando a escola pública cumpre o seu papel, o Brasil dialoga. E dialoga pela diversidade – tanto de experiências quanto de variações da língua portuguesa. Quando a escola pública perdeu qualidade e prestígio, a classe média desertou. Mas o que poucos pais percebem é que uma escola não se define apenas pela competência em transmitir conteúdos programáticos, mas também e principalmente pela capacidade de ser um espaço de convivência dos diferentes.
No momento em que a escola privada vira um gueto de classe, cada vez mais fechada em si mesma, ela perde uma das principais razões de ser de uma escola, na medida em que só é possível o convívio entre iguais. É por isso que, na minha opinião muito pessoal, mesmo aquelas que são consideradas as escolas privadas de excelência do país, com aprovações massivas nos vestibulares das melhores universidades, são escolas que falham tremendamente na sua missão de educar.
As consequências dessa deformação naquilo que é a essência da educação a gente percebe nas ruas. Assim, me parece, as lições da Olimpíada de Língua Portuguesa, que bota a dialogar a filha de um plantador de fumo da região sul com o filho de um vaqueiro do Nordeste, dizem algo crucial não só para a escola pública, mas também para a privada. Se quisermos ter educação de qualidade neste país, é preciso derrubar os muros – tanto os reais quanto os simbólicos – e dialogar.
Dialogar a partir da experiência de cada um, com a experiência de todos os outros. Quando a educação se precariza, não é apenas de falta de mão de obra qualificada que o Brasil padece – mas de brasileiros capazes de reconhecer a experiência do diferente e dialogar com ela, em todos os espaços da vida. Porque é neste diálogo que um país cresce – ou se torna.
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P.S. – Recomendo – com muita veemência – que, sobre a língua portuguesa, assistam à conferência do linguista Carlos Alberto Faraco sobre a “senhora dona norma culta” e o “pretoguês” (clique aqui).

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Seminários Abertos PPG-Letras UFRGS

Seminários Abertos: “Diálogos”
Programa de Pós-Graduação em Letras - UFRGS
Tema: "Variação linguística em livros didáticos"
Palestrante: Profa. Dra. Ana Maria Stahl Zilles (PPG Linguística Aplicada, Unisinos)
Data:
27 de junho de 2011 – 14:00
Local: Sala 120 do Instituto de Letras - UFRGS


domingo, 19 de junho de 2011

Entrevista com Gilvan Müller, Diretor- Executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP)

Para Gilvan Müller, "é preciso superar a ‘ideia romântica de que as línguas não são objecto de gestão. As pessoas têm o hábito de encarar a língua como um produto da natureza. No entanto, é preciso entender que há grupos que a formam e a conformam, e como tal precisa de políticas sérias e inteligentes. E como não há vácuos de poder no mundo, a língua é de quem se apropria dela e gere'." (Kriolidadi Suplemento Cultura, 3 de junho de 2011) Leia a entrevista completa aqui.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Discussão na UFRGS sobre preconceito linguístico

PET Letras UFRGS convida:

Estudos complementares:
Discussão do dossiê sobre preconceito linguístico do número 36 dos Cadernos de Letras da UFF.


O dossiê é composto por artigos de autores de diferentes especialidades: sociolinguística, linguística histórica, análise do discurso, entre outras. Os artigos serão indicados como leitura de referência para o debate e serão apresentados pelos petianos.

Professores participantes: Elisa Battisti e Luciene Simões.

Quando? Sexta, 1 de julho · 13:30 - 17:00
Onde? Anfiteatro do Instituto de Química, sala A214

Site dos Cadernos de Letras da UFF: http://www.uff.br/cadernosdeletrasuff/

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Círculo Educação Linguística recomenda

Programa da disciplina Educação e Linguagem aborda as variantes linguísticas e as diferenças entre linguagem oral e linguagem escrita (Univesp TV). Assista aqui.

"A escola é o lugar onde o conhecimento é transmitido de forma democrática, igualmente para todos os alunos. Aparentemente. O sociólogo francês, Pierre Bourdieu, que viveu até o início deste século, percebeu que o ensino não é transmitido da mesma forma para todos os alunos, como a escola faz parecer." (Univesp TV) Para assistir, clique aqui.

sábado, 4 de junho de 2011

Visão normativa e visão científica: é possível levar a linguística para além dos muros da academia?

XIV Encontro dos Alunos de Pós-Graduação em Linguística da USP
Data: 14, 15 e 16 de junho de 2011 - USP, São Paulo

"A comissão organizadora da 14ª edição do ENAPOL (Encontro dos Alunos de Pós-Graduação em Linguística) propõe para o encontro deste ano uma discussão sobre as diferentes visões existentes no estudo da língua e da linguagem. Chamamos a todos para refletirem sobre tópicos como a gramática normativa, os preconceitos linguísticos, a diferença entre língua escrita e língua falada, o ensino de língua nos níveis fundamental e médio, visando a responder à seguinte pergunta: é possível levar a linguística que nós fazemos na universidade para fora de seus muros, para a escola e para a sociedade?"
Confira a programação aqui.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Simpósio Linguagem e Escola

Que questões sobre educação e escola estão por trás da polêmica sobre o livro didático adotado pelo MEC?

DATA: 07 de junho (terça-feira) às 18h

LOCAL: Faculdade de Educação (Faced)

Av. Paulo Gama, 110, Campus Centro - Sala 101

CONVIDADOS:

Profa. Cátia Ramos- Professora de EJA no município de Porto Alegre

Profa. Luciana Piccoli - Faculdade de Educação/UFRGS

Profa. Rosa Hessel Silveira - Faculdade de Educação/UFRGS

Profa. Luciene Juliano Simões - Instituto de Letras/UFRGS

MEDIADOR:

Prof. Pedro Garcez - Instituto de Letras/UFRGS

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Vale a pena assistir!


De uma maneira simples e informada, o Doutor em Linguística pela USP, José Luiz Fiorin, explica questões complexas que estão em pauta no debate acerca do livro didático "Por uma vida melhor": a relação entre língua e identidade, a relevância de se discutir variedades da língua com os alunos na escola e o ensino da norma culta.

Destaca-se a comparação que ele faz entre a percepção de variedades sociais da língua e a de variedades regionais: “Ridicularizar a língua que alguém fala é ridicularizar a sua própria identidade. Imagina se eu começar a ridicularizar as variedades regionais da língua: começar a ridicularizar a forma como um gaúcho fala, como um carioca fala, como um sergipano fala...”



terça-feira, 31 de maio de 2011

Evento Unisinos


Painel e debate sobre o tema Livro didático - o certo e o errado na mídia.

Painelistas:
Profa. Dr. Luciene Simões (Letras, UFRGS) - Tabus na escola representada: pode-se dizer e ensinar o que se deve aprender?

Profa. Dr. Gelsa Knijnik (Educação, UNISINOS) - Diferentes formas de vida, diferentes matemáticas...

Prof. Dr. José Luiz Braga (Comunicação, UNISINOS) - Circuitos canhestros

Coordenação:
Profa. Dr. Ana Maria Stahl Zilles (Letras, UNISINOS)
Profa. Mestre Ana Luiza Freitas (Letras, UNISINOS)

Data: 08/06/2011
Horário: 19h e 30min às 21h e 30min
Local: Auditório Central
Público-alvo: Evento Gratuito para Alunos de Letras, Comunicação, Pedagogia e Comunidade em Geral

Os alunos que desejarem contar a atividade como horas complementares devem fazer inscrição junto à Central de Atendimento ou no site da UNISINOS.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Dossiê - Livro Didático no Portal do MEC

Se você quiser ler mais artigos sobre a polêmica causada pelo livro didático “Por uma Vida Melhor”, adotado pelo Ministério da Educação (MEC) e distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (PNLD-EJA), clique aqui.

Narradores de Javé - Indicação de filme

Narradores de Javé
(Direção: Eliane Caffé, 2003)
Andréa Mangabeira

“E desde então essa é a história de Javé que se conta, mas que também pode ser lida e relida por essa serra e por essas grota sem fim, tá assentada em livro correndo o mundo, pra nunca que ser esquecida, é isso e num tem mais que isso, quem quiser que escreva diferente.” (Fala de Zaqueu, personagem do filme).


A fala em destaque retoma alguns dos pontos mais interessantes no filme Narradores de Javé. O longa nacional, dirigido por Eliane Caffé e lançado no ano de 2003, conta a história do povoado de Javé, no interior da Bahia, que se vê ameaçado pela construção de uma barragem que provocará seu desaparecimento.

O que fazer, diante de tamanha ameaça? Como provar o valor do povoado e impedir que toda a sua história grandiosa seja levada pelas águas? A solução para essas perguntas é que constrói o enredo dessa história narrada por Zaqueu, líder do povoado, e protagonizada por Antônio Biá, habitante alfabetizado, cujo valor pessoal está em dominar a escrita em um lugar onde praticamente todos são analfabetos.

Antônio Biá, funcionário de uma agência de correio, perde seu emprego quando a agência é fechada, afinal “Pra quê um posto de correio num lugar que ninguém sabe ler e escrever?”. Na tentativa de manter a agência em funcionamento, acaba caindo no ostracismo, rechaçado por toda a cidade e condenado a exercitar a escrita apenas nas paredes de sua casa. A situação do personagem levanta a pergunta: afinal de contas, de que vale saber escrever num lugar onde ninguém sabe ler? A continuidade da trama mostra, no entanto, como o domínio da escrita pode se tornar algo muito valioso, reconfigurando as relações de poder e prestígio de uma população ribeirinha e semianalfabeta.

“Uma coisa é o fato acontecido, outra coisa é o fato escrito, o acontecido tem que ser melhorado no escrito de forma melhor para que o povo creia no acontecido (...) se o sujeito é manco, eu digo que ele não tem uma perna, é das regras da escritura. Essas palavras de Antônio Biá ganham importância quando a cidade começa a enfrentar a difícil tarefa de escrever sua história no “Livro da Salvação”, reunindo em uma só versão escrita as muitas versões orais contadas e recontadas através de gerações. A razão para tamanho esforço é revelada pelo líder Zaqueu: “só não inunda se for patrimônio (...) até hoje ninguém escreveu porque não precisou (...) temo que botar na escrita pra provar pra as autoridade porque que Javé tem que ter tombamento.”

O filme trata de uma maneira séria, ainda que descontraída, questões muito complexas, mostrando como discussões que muitas vezes se restringem ao âmbito técnico e acadêmico podem ser abordadas visando à interlocução com os mais diferentes públicos. No cardápio dos debates que o filme levanta, podem ser destacados: memória, história oral, patrimônio cultural, letramento, analfabetismo, relações de valor entre escrita e oralidade e relações de poder e prestígio mediadas pela escrita. Tudo isso sem falar na questão central e polêmica que é a inundação de cidades para a construção de usinas hidrelétricas.

Narradores de Javé é uma boa pedida para aqueles que querem dar boas risadas e se divertir com o dia-a-dia de um povoado narrado por meio de uma linguagem repleta de ditos populares regionais e de muito bom humor. Além disso, para os profissionais ligados à educação, o filme pode ser um ótimo aliado para levar para a sala de aula o debate acerca de diversas questões relacionadas às áreas da linguagem e das ciências humanas, especialmente as que abordam o uso da linguagem e sua relação com a participação social e as demandas de uma sociedade letrada.

Encontro Letras UFRGS 01-06-11

UniVerso
Programa Cultural do Campus do Vale apresenta UniVerso Debate com
Paulo Guedes, Pedro Garcez, Luis Augusto Fischer e Sergio Menuzzi

Com os professores convidados:
Margarete Schlatter, Luciene Simões e Gabriel de Ávila Othero

Pauta: O que está por trás de toda a polêmica.
Que escola, que ensino queremos?

Local: Auditório do ILEA
Data e horário: 01/06/11 - 12h

Realização: Instituto de Letras - UFRGS, UniVerso Programa Cultural
Apoio: PET Letras - UFRGS

Contato: universo.programa@gmail.com

Linguagem. Uma construção constante

Revista IHU On-Line, 30-05-11

A norma culta, a linguagem falada e a escrita em suas incessantes reinvenções e adequações é o tema de capa da revista IHU On-Line desta semana. Leia o editorial e os textos dos entrevistados aqui.


domingo, 29 de maio de 2011

Por que “nóis erra” a gramática - ÉPOCA, 24-05-11

Por que “nóis erra” a gramática
Luís Antônio Giron
Ao condenar as “falhas” do livro didático em questão, os donos da verdade cometeram um erro duplo de linguística: compreenderam a gramática normativa como uma verdade absoluta e condenaram quem não a segue. A postura raivosa não tem nada de respeitável. Ao contrário, só faz emergir prejulgamentos levianos. Cometeram um erro básico de interpretação. Leia mais aqui.

Entrevista com Marcos Bagno - Instituto Humanitas Unisinos On-Line, 28-05-11

Quando a língua se transforma em objeto de manipulação ideológica e controle social. Entrevista especial com Marcos Bagno
Depois da discussão sobre o conteúdo dos livros didáticos oferecidos pelo governo, em que são apresentados supostos erros de português, o doutor em filologia e língua portuguesa Marcos Bagno é taxativo: a polêmica que envolve o assunto é falsa. Leia mais aqui

sábado, 28 de maio de 2011

Evento na UPF

POLÊMICA - O curso de Letras da UPF promove palestra gratuita sobre a proposta de ensino de língua em livro didático recomendado pelo MEC e estrangeirismos.

Data: na terça, às 19h30min
Local: Auditório da Faculdade de Odontologia, no Campus I (BR-285, Km 171, Passo Fundo).Informações: (54)3316-8330. Fonte: Informe de ensino - ZH - sexta, 27/05.

Inês não é morta, Cláudia Laitano

Era uma vez um reino onde vicejava uma linda donzela, que a todos seduzia e encantava. A todos menos a um certo poeta, de parnasianas rimas, que espalhou o boato de que era tão inculta quanto bela a musa que rejeitou seus versos com duas palavras e uma exclamação: “São enjoados!”.

O coração de Inês (este era o nome da donzela) era disputado por dois pretendentes que não gozavam da simpatia do pai, um sujeito mal-humorado, desses que não veem graça em trocadilhos. Um deles era rico e viajado, mas forasteiro. Seu approach era chic, mas podia ser tudo mis-en-scène, pensava o pai com seus botões – seus únicos interlocutores, aliás, além de um ou dois deputados locais.

O segundo pretendente era risonho e inventivo, mas lhe faltavam as luzes, as letras e provavelmente alguns números também. Falava “tu foi”, “tu vai” e quando surpreendia a amada passeando sozinha, ventura suprema, dava um jeito de sussurrar ao pé do mimoso ouvido: “É para mim beijar agora ou depois?”.

Para o pai ciumento, nenhum dos dois estava à altura de sua Flor-do-Lácio, que era o apelido da filha caçula. Entre o gringo e o pé-rapado, o pai preferia ver a filha morta, esticada no tabuão, mas castiça. Faltou, porém, combinar com o adversário, como diziam os reais cronistas esportivos. Entre o esplendor e a sepultura, Inês não teve dúvidas: tomou os dois pretendentes como amantes, e mais alguns que nem apareceram na história, e com eles teve muitos filhos e filhas – e continua tendo. Não casou nem prometeu exclusividade a ninguém. O pai, amargurado, morreu no exílio.

Como a donzela da fábula, a língua tem amantes, mas não tem marido nem pai a quem deva obediência. Inês não é morta. Querem protegê-la dos estrangeirismos e inventam leis estapafúrdias. Querem protegê-la da corrupção que vem das ruas e se espantam quando um livro didático lembra que as pessoas falam de um jeito, mas escrevem de outro (como se eu, o leitor e toda a torcida do Benfica já não soubéssemos disso). A língua é bonita e disponível, mas não precisa de guarda-costas – defende-se muito bem sozinha. Vive se modificando, adquirindo vícios, encurtando caminhos, arejando o que está nos livros com o ar fresco que vem do uso cotidiano e da literatura. É impossível estudá-la sem lembrar que é um organismo vivo, em constante transformação, e que a gramática é apenas um acordo que falantes e leitores usam para se entender melhor em meio a tantas variações da linguagem cotidiana.

Na polêmica com os livros do MEC, muita gente deu opinião sem examinar o livro, lendo coisas que não estavam escritas. Foi como uma gota d’água em meio ao descontentamento unânime com o ensino no Brasil. Isso porque a pedagogia do coitadismo, que permite tudo aos alunos e acha feio cobrar esforço e desempenho, realmente tem ajudado a piorar nossos índices já vergonhosos. Também é verdade que o discurso de respeito às variantes da língua não pode servir como desculpa para que professores e alunos abram mão de estudar a norma culta, que nos unifica e desafia.

Mas um livro que ensina que uma língua é mais rica e complexa do que a sua gramática não está necessariamente invocando o demônio da ignorância. Está apenas reconhecendo o óbvio: Inês vive.


Publicado em ZERO HORA, 21 de maio de 2011, p. 2